sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Panoramas do Bolsa Família em SP


Metrópole ainda precisa ir além das medidas sociais convencionais para acabar totalmente com a desigualdade, segundo especialista


A ajuda de custo melhora problemas antigos de SP, como o transporte público, infra-estrutura e crescimento cultural

Na cidade de São Paulo, o Programa federal do Bolsa Família, assim como no restante do país, é utilizado como uma ferramenta para amenizar a má distribuição de renda. Contudo, mesmo que no município o número de beneficiados seja menor comparado ao total, o perfil das famílias atendidas ilustra um dos problemas mais graves no cenário urbano: a desigualdade social.

Em 2011, de acordo com o Data Social, boletim feito pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, a média da renda total das cerca de 202.879 famílias paulistanas acolhidas pelo programa era de meio salário mínimo. Comparados à outra pesquisa divulgada no mesmo ano, feita pelo SAE, Secretaria de Assuntos Estratégicos, as diferenças econômicas tomam forma. A análise conclui que a classe média no município possui salário per capita entre R$ 291 e R$ 1.091.

Os abismos criados entre as duas realidades têm antecedentes no início do desenvolvimento econômico da cidade. Conhecida como ‘a terra das oportunidades’, São Paulo foi o refugio para milhares de migrantes que fugiam da miséria e acabaram deparados com a rotina feroz do capitalismo em ascensão. Hoje, uma grande parte dos remanescentes vindos de outras partes do Brasil, mora nas periferias da cidade e dependem da ajuda do governo.

Residente em São Paulo há 20 anos, a pernambucana Maria de Lourdes Moraes, 42, chegou à cidade fugindo da extrema pobreza em que vivia com a família. Com os R$ 188 que recebe do Bolsa Família, ela sustenta seus cinco filhos em idade beneficiada, menores de 16 anos. Através de eventuais serviços de faxina em casas de outras famílias, Maria consegue complementar a renda, que chega à R$ 300, e vê o avanço nas condições de vida antes e depois do programa.

“Sinceramente, não sei como sobreviveria sem esse dinheiro. Com ele, consegui comprar camas para meus filhos, que até então dormiam no chão. Temos nossa máquina de lavar, a televisão e consigo garantir nossa comida. Hoje, certamente, a vida está melhor do que quando cheguei aqui”, diz.

Segundo o economista e professor da Universidade Anhembi Morumbi, Volney Gouveia, a principal contribuição do programa para o município é o resgate da dignidade desta parte da população. O investimento feito pelo governo através do benefício, cerca de R$ 229,5 milhões, consegue ter resultados positivos que vão além da economia.

“Estudos apontam que o retorno de cada real aplicado no Bolsa Família, tem o retorno de 40% adicionais. Para uma economia tão complexa como a de São Paulo, esse reflexo possui proporções menores. Contudo, pensando de uma maneira social, ele é uma ferramenta para impulsionar pessoas que não possuem nenhuma perspectiva. O dinheiro aplicado neles, aumenta sua  renda per capita e auxilia no suprimento de necessidades locais, como transporte, comércio, saúde, etc.”, explica o professor.

Embora o programa seja uma saída viável para diminuir um dos maiores desafios do país, ele não deve ser feito sozinho. O economista afirma que para erradicar de vez a miséria na região paulistana é preciso criar medidas de desenvolvimento regional. “Caso São Paulo, assim como o Brasil, queira chegar à patamares de desenvolvimento efetivo é imprescindível acabar com a pobreza extrema. Para isso, além das medidas tomadas pelo governo federal, é preciso ganhar uma autonomia de gastos para as prefeituras e, principalmente, para as subprefeituras. Assim, os setores que carecem de maiores investimentos nas periferias serão melhor atendidos”, propõe Volney.